Você, só é você, sozinho, em frente a tela do seu computador.
1. QUESTIONAMENTOS ACERCA DA REALIDADE VIRTUAL
Você sabe o que é o Orkut? Já criou o seu perfil? Tem enviado muitos
scraps/recados para seus amigos? Quantos fãs você tem? E
coraçõezinhos? Já recebeu ou escreveu algum testimonial/depoimento?
Se sua resposta for “não”, segundo “os especialistas no assunto”,
considere-se mais um integrante do time de dinossauros da era
digital. Se for “sim”, certamente você estará melhor capacitado a
responder a mais algumas questões.
Você tem alimentado sua “identidade virtual”? O que te dá mais
prazer: o “mundo real” ou o “mundo virtual”? É você no seu perfil,
ou uma idealização da “pessoa imaginada ou até mesmo imaginária” que
você gostaria de ser? O site tem sido uma “ferramenta de apoio” ou
representa um “vício desenfreado”? Você utiliza-o para “re-encontrar
e fazer novos amigos” ou como “o olho do BIG BROTHER” na ponta dos
seus dedos, a vasculhar anonimamente perfis, possibilitando a
realização do clássico desejo, “ser invisível”, perto de pessoas,
cuja intimidade, gostos, relacionamentos e atitudes, você gostaria
muito de conhecer? Orkut para “fortalecer vínculos” ou “exposição
induzida” para sair do anonimato?
E, exclusivamente ao público cristão, menor de 18 anos:
Você sabia que as regras do Orkut não permitem o acesso de menores?
Quando você criou o seu perfil, “mentiu” ou “apenas distorceu a
verdade”, uma vez que, não considera a regra tão relevante?
Você já conhece o “submundo” do ORKUT? Já refletiu sobre os perigos
da superexposição?
2. ORKUT E A SUA DIMENSÃO
O Orkut é o maior site de relacionamentos virtuais criado pelo
engenheiro e programador turco do Google, Orkut Buyukkokten.
Atualmente, este site tem sido objeto de estudo de pesquisadores, e
alvo de muitas críticas e poucos elogios por parte de órgãos
preocupados com os crimes virtuais praticados impunemente através da
rede. Um dos fatores mais preocupantes é a espantosa adesão anônima
que o projeto obteve em pouco mais de 2 anos. Do dia 22 de Janeiro
de 2004 até o final de agosto de 2006 quase 26 milhões de perfis
mantinham-se cadastrados no banco de dados do Google.
Segundo a enciclopédia virtual Wikipedia, “em média, a cada 10
dias, 1 milhão de novos usuários ingressam no Orkut por meio de
convites enviados por e-mail”. As estatísticas colocam o Brasil no
topo da lista. É o país com maior adesão a rede, representando 66%
da fatia de perfis, isto é, aproximadamente 17 milhões, seguido, em
segundo lugar, pelos Estados Unidos com (13,15%), Índia (7,51%) e
Paquistão (1,90%). A adesão é vertical.
3. OBJETIVOS E REPRESENTAÇÃO DA REDE
Mas, afinal, o que há de tão interessante no Orkut que faz
milhões de usuários gastarem “em média” 2 horas por dia, vasculhando
perfis e descobrindo novas comunidades? Fazer novos amigos,
compartilhar interesses, teclar com pessoas que o tempo e as
circunstâncias da vida real se encarregaram de nos separar, estejam
onde estiverem, torna-se possível, graças a essa tecnologia
inovadora. É como se os amigos fossem livros à disposição nas
prateleiras de uma biblioteca pessoal. Uma vitrine de pessoas de
verdade e de mentira. Pode-se inclusive classificá-las por
preferência: melhores amigos, bons amigos, apenas amigos,
simplesmente conhecidos ou nem isso. O importante é que estejam lá,
embora não sejam lidos. Para alguns, o tamanho da “biblioteca”
representa o nível de influência e socialização do individuo. Para
outros, uma forma de autopromoção. No mundo virtual, esta é somente
a ponta do iceberg. Há uma razão muito maior, submersa e intrínseca
da personalidade humana no comando das atitudes solitárias on-line.
Ver e não ser visto.
O Orkut possibilita a visibilidade do “eu ideal,
com toques de realidade”, e a invisibilidade do “eu real”,
aquele sem máscaras, que acessa o perfil do vizinho, do colega de
aula, do(a) fulaninho(a) com quem você nutre uma saudável inveja ou
antipatia, - e isto acontece dentro da igreja, sim - do antigo(a)
namorado(a), mas que estremece ao cogitar a hipótese de que ele(a)
saiba que ando interessado em sua intimidade. É o mundo espetacular,
utópico. Se fosse verbo, não haveria dúvida, seria
“mais-que-perfeito”. Lá, as pessoas vivem intensamente a vida, são
mais bonitas, inteligentes, cultas, repletas de amigos, fãns uns dos
outros. Tornam-se patriotas, leitores compulsivos obcecados por
Nietzsche, Shopenhauer ou qualquer outro autor, contando que seja
clássico. Mas, será isso verdade?
As comunidades fogem o objetivo para o qual foram criadas: A
interação. Elas estão lá como objeto de construção da identidade
virtual. Somente 5% dos usuários interagem nestes grupos. No perfil,
defeitos expostos, não são defeitos. Eles representam adjetivos de
impacto. Este espaço é normalmente preenchido com, desde o brasão do
time do coração até os mais “fisolóficos”, ou melhor, “filosóficos
pensamentos” a cerca da vida ou posicionamentos fúteis. Na maioria
das vezes o “ser virtual” está muito distante do “ser real”. No
quesito livros, por exemplo, segundo O Retrato da Leitura no
Brasil, divulgado pela CBL, o brasileiro lê em média, menos de
um livro por ano. Deve haver algum engano, aí! Talvez, se a pesquisa
fosse feita através dos perfis do Orkut, o Brasileiro estaria no
páreo, concorrendo ao título de “o povo mais culto de todas as
épocas”. Que tal, “BRASIL, a Grécia da neomodernidade!?”.
Assim como o mundo real tem o seu lado ético, antiético,
prazeroso, criminoso, assim também é o mundo virtual. A diferença é
que na vida real, as pessoas não se arriscam tanto devido as
represálias da ética social. A virtualidade, no entanto, possibilita
este afastamento.
O usuário pode não se contaminar, é verdade, mas dentro do
montante, isto é exceção. Participar de comunidades “Eu amo Jesus
Cristo”, “Sou fiel e não desisto” e por aí vai, não é garantia de
integridade. Ninguém está imune as tentações, aliás ela pode ser
muito facilmente cedida quando o olhar da ética está distante. Este
texto não tem o intuito de julgar ou convencer as pessoas a
cometerem o ORKUTÍCIO, isto é, o suicídio virtual, mas tem o desejo
de conscientizar e provocar a auto-reflexão. Segundo a jornalista
Raquel Recuero da Universidade Católica de Pelotas, pesquisadora de
Dinâmicas de redes sociais na Internet, fazer parte desta
rede é uma forma de elevar o status. “Quem não está, entra. Quem
sai, volta”. Para você que já faz parte, vai entrar, saiu e vai
voltar, esteja alerta: “Você está sendo vigiado, e quem fornece
os dados é você mesmo”. Não esquece, tudo pode ser utilizado
contra você. “A falta de malícia para a vida nos induz a
correr riscos desnecessários”.