Vivíamos nas
alturas desfrutando da imensa gloria, cercados por criaturas
angelicais, as quais dedicavam-nos todas as honras em forma de
louvores e adoração. Nosso Pai, o Soberano, concebia maravilhosos
projetos com sua tremenda sabedoria e mos entregava para que fossem
executados. Lembramo-nos de quando nada havia, somente nosso Espírito
pairando sobre a imensidão. Foi quando tivemos que começar do nada
para fazer tudo. O magnífico Poder que dominava sobre tudo que
criávamos, dispunha os corpos celestes, os elementos fluídos, a terra,
os seres viventes e os inanimados, cada um no seu devido lugar.
Tivemos muito trabalho mas valeu à pena. À medida em que íamos criando
tudo que existe, dotávamos nossa criação de vida e leis que iriam
reger seus movimentos eternamente pela mão de meu Pai. Tudo era
esplendor. Em nossa habitação havia a mais perfeita harmonia e a mais
expressiva unidade, a ponto de formarmos um único "Todo". Nós, nosso
Pai, e nosso Espírito, sempre fomos e seremos o Mesmo pelos
séculos dos séculos.
Numa época
determinada por nosso Pai, num passado bem remoto, quis a Vontade
Soberana criar um ser que tivesse muito de nós. Assim foi criado
alguém com nossas características, recebendo essa espécie a
denominação de homem. Providenciamos um verdadeiro paraíso para que
essa criatura pudesse ter atividades, através delas glorificar nosso
nome. Querendo quebrar a harmonia, um de nossos adoradores rebelou-se
em nosso meio tomando atitudes orgulhosas. Com ele insuflaram-se
outros, provocando uma guerra renhida. Não tivemos outra alternativa
senão lança-los de nossa presença. Infelizmente caíram sobre a terra
provocando grande confusão. Talvez por vingança, o maioral dessa turba
rebelde incutiu na mente de nossa criatura para que desobedecesse as
determinações divinas. Esse gesto de transgressão fez com que o ser
humano perdesse sua paternidade espiritual e sua condição de filho que
era, continuando apenas criatura, desprovido das benesses inerente à
nossa condição.
Nosso Pai,
depositário do profundo amor, amava muito essa criatura a ponto de
providenciar um recurso bastante extremo para recupera-la. Seria um
gesto que aplacasse Sua ira e indignação pelo terrível acontecimento.
Resolveu enviar seu Representante para desempenhar a difícil tarefa de
adotar o pródigo, reconduzindo-o a ser novamente um dos nossos. Fomos
escolhidos por sermos da mesma essência de nosso Pai. Outro certamente
não poderia desempenhar essa função.
Deixamos nosso
lugar de gloria. O convívio de nosso Pai, os anjos que glorificavam
nosso nome e uma esfera deliciosamente espiritual. Nosso Espírito
transportou-nos a um ambiente extremamente diferente de nossa casa
paterna. Metamorfoseou-nos, transmudando-nos em criatura humana, tudo
para relacionar-nos com ela. De Espírito vivente passamos a ter um
corpo, corpo de homem sujeito a uma série de fatores estranhos à nossa
condição primeira. Esvaziamo-nos de nossas qualidades para adquirir
forma e substâncias alheias ao nosso ser espiritual. Recebendo um
invólucro que envolveu nosso ser, fomos colocados em choque com forças
antagônicas que fizeram o nosso dia-a-dia. Desde os momentos em que
começamos a nos sentir participante da esfera terrestre, quando ainda
criança, a incompreensão por parte de nossos "iguais" era a tônica do
antagonismo, situação esta que perdurou ao longo de nossa missão. No
cumprimento de nossas tarefas, sentíamos quase como um intruso em um
ambiente levedado pelos fermentos das mazelas humanas. Elementos de
vida irregular estiveram conosco, seguindo-nos ao longo de nossa
jornada. Vezes sem conta os mandatários censuravam-nos por
identificar-nos com essa gente, a ponto de sermos considerados
beberrões, comilões, imundos e até asseclas de demônios. Na proporção
em que nosso trabalho se desenvolvia, crescia as aversões em torno de
nossa pessoa. Também aumentava nossa ansiedade por não sermos
compreendidos. Como éramos esperados na condição de um monarca, foi
grande a decepção de nosso povo ao ver-nos cavalgando uma cria de
jumenta. Durante o curto tempo de nosso ministério, passamos por toda
sorte de humilhação, sendo contraditados em relação à nossa origem.
Jamais fomos aceitos como unigênito filho de nosso Pai. As situações
criadas em decorrência de nossa postura ocasionou uma série de fatores
contraditórios que nos levaram às barras dos tribunais. Os governantes
consideravam-nos usurpadores e que nosso carisma com o povo poria em
risco seus domínios. Era grande o contingente de interessados que se
faziam em nossos passos. Demos pão a essa gente. Curamos a todos de
suas enfermidades. Expelimos castas de demônios, no entanto a maioria
não quis nada com nossa mensagem. Não entendiam. Só laboravam pelo pão
que perece.
Vagarosamente a
hora crítica aproximava-se. Com ela crescia nossa agonia a ponto de
nosso suor transformar-se em gotas de sangue. Esse mesmo sangue que
mais tarde iria ser derramado por todos os componentes da espécie
humana. Sangue que seria o preço da desobediência da obra prima da
criação de nosso Pai. Traição! Eis que deparamo-nos com esse tremendo
golpe. Isso magoou-nos profundamente, mais que as bofetadas que
receberíamos próximo à hora crucial. Quantas vezes esforçamo-nos para
sermos amigo desse ignóbil ser, a quem perdoamos. Ensinamo-lhe o
verdadeiro caminho, tendo inúmeras vezes "comido do nosso prato e no
entanto virou o calcanhar contra nós". A maior ironia disso tudo foi o
preço estipulado para o filho do carpinteiro: trinta moedas de prata!
O Gôlgota já se
divisa ao longe. Nosso tormento aproxima-se rapidamente. Com ele todo
o peso da mácula de milhões de seres humanos, estando a maioria
distanciada das diretrizes que nosso Pai insistiu fossem anunciadas.
Noites de tormento, momentos de solidão quando nossos assistentes
deixam-nos a sós com os adoradores do deus fálico. Negação! Mais um
gesto de exceção, de quem prometeu ir conosco até à morte. Só. Somente
só. Ninguém dos nossos disposto a presenciar nossa coroação. O prêmio
do escárnio, da zombaria, rematado com uma coroa espinhosa, símbolo de
um monarca sem trono. Angustiamo-nos. Até na sede, uma de nossas
companheiras, acharam motivo para nossa tortura. Pai. Ó aba Pai!
Sentimo-nos desamparados. O zorrague do algoz a dilacerar nossas
carnes.
Trilha sangrenta,
vereda que percorremos, moídos a sentir o torpor da morte. Pesado
madeiro, clemência distante. Açoites desnudam-nos a espinha
arquejante, enfraquecida. A um bom "samaritano" no meio da turba,
ordenam-lhe que nos ajude a suportar e a carregar o instrumento de
nosso suplício. Choros, lamentos e indignações são as oferendas ao
nosso epitáfio. Pelo menos nossa "via crucis" demonstrou que o pecado
não conseguiu extirpar do ser humano alguns sentimentos doados por
nosso Pai. Alguém ainda chora. Ainda não estão mortas as virtudes no
âmago de nossos irmãos. Prenuncia nosso requiem.
Estamos no lugar
das caveiras. Nosso último aposento enquanto nos resta um pouquinho
das forças que se esvaem. Que fizemos para recebermos tantos
contratempos? Já que não fomos nós, alguns ou muitos o fizeram.
Vislumbramos da fatídica colina a velha Jerusalém. Sob a penumbra do
dia que se esvai juntamente conosco, só podemos divisar os píncaros do
templo onde, até ali, vimo-nos contrariados.
Estamos feridos,
imprimidos pelos grampos contra o madeiro, tendo uma dor tão intensa,
somada àquela que sentimos há muito pelos semelhantes que nos
desprezam. Esta, porém, ultrapassa a estádios, ferindo nossa alma
quase desfalecida. Tirantes são içados sustentando o "horizonte" com
nossos braços cravados. Apontando para o solo, a haste vertical serve
de guia ao nosso sangue que escorre. Sangue, pouco sangue, acham.
Ferem-nos ao lado para que saia mais sangue.
Decepção! Não há
mais carmesim. Fôra todo derramado em sacrifício, transformado no
mistério que redime, que purifica e justifica a todos que o solvem.
Nossos companheiros de suplício são as únicas sombras que divisamos a
nossos flancos. Mesmo esvaindo-se nossas forças, dispensamos nossos
últimos gestos de corpo vivente: "hoje estarás comigo no paraíso...
Pai, em tuas mãos entregamos nosso espírito..."
...Voltamos à vida
e ser a Vida. Não tentamos deter nossa Vida fluídica, o Pneuma
englobado sob a Trindade Augusta. Estamos novamente na casa paterna,
junto a nosso Pai. As lembranças nos ocorrem, não as podemos evitar.
Junto às lembranças, as conjeturas envolvem nosso pensamento.
Recordamos nosso crucial sofrimento e a razão de tudo isto ter se
verificado conosco. Antes da fundação do mundo estávamos cientes de
que tudo iria ocorrer num determinado tempo. Podemos enumerar numa
ordem quase cronológica: Saímos de nossa esfera, passamos a um estágio
diferente e longínquo, padecemos, vertemos nosso sangue em benefício
dos habitantes desse lugar, morremos a exemplo de todos os mortais.
Ressuscitamos. Esse gesto propicia, a qualquer tempo, condição a que
nossos irmãos venham para onde estamos agora. Continuamos a interceder
pelos que foram chamados e que passaram a ser nossos irmãos, "bebendo"
espiritualmente nosso sangue através da fé. Ante tudo que passamos,
resta-nos uma indignação contra uma grande parte da espécie humana.
Não obstante havermos cumprido todas as determinações de nosso Pai;
termos aberto o caminho da vida eterna, colocando-nos na condição de
único Mediador entre nosso Pai e os homens – de fato fora de nós não
há como se chegar ao Pai – para que todos viessem a se tornar
novamente filhos de nosso Pai; continuamos a presenciar a grande
parcela da humanidade substituindo-nos por outros seres, ou até mesmo
por objetos. Colocam falsos mediadores, co-redentores, delegando
nossas funções a eles. O que é pior, sem nossa autorização. Jamais
demos margem a que adicionassem quaisquer elementos "usurpando"
tarefas reservadas à nossa pessoa. Nessa empreitada somos o
Único.
No patamar em que
nos encontramos, onde tudo está envolvido por uma atmosfera de
resplendor e glória, custa-nos aceitar o fato de que nosso sacrifício
(parece) não tenha sido suficiente. Com as adições de pseudos
senhores, procuram dar a entender que nosso sangue não tenha o
substancial valor para purificar os que se chegam a nós. Até parece
que todo o poder que o Pai nos deu tenha-se enfraquecido, a ponto de
os humanos clamarem a alguém, e este nos passar o recado. Estaríamos
porventura, surdos, necessitando de uma "sentinela avançada" para
fazer chegar até nós os apelos da terra? Não somos, porventura,
onipotentes?
Que ingratidão! A
semeadura fizemos nós. Na colheita os "ceifeiros" são outros.
Realmente estamos indignados! Quem padeceu? Quem verteu seu sangue
inocente como de um tenro cordeiro? Antes disso, quem foi que deixou
as alturas por amor dos insubordinados e recalcitrantes? Por ventura
não fomos nós? Causa-nos profunda tristeza ao saber que fizemos tudo
pelo povo ingrato, e no entanto outros seres, os quais nós os amamos e
que até necessitaram de nossa salvação, estão recebendo louvores,
honra e até adorações em nosso lugar. O pior de tudo é que até objetos
ou coisas tomam o nosso lugar quando apelam para a fé. Tem sido mais
fácil depositar fé numa relíquia, num punhado de ossos de alguns de
nossos servos do passado, num copo d’água, numa rosa mística, num
torrão por onde pisamos, que propriamente em nosso nome. Nossa
cotação, a julgar pelas atitudes arbitrárias, anda muito baixa! Quem
mudou? Podemos garantir que não fomos nós!
Desde remotas
eras, desde quando o primeiro representante da raça humana pisou em
falso, vimos nosso Pai lutando com esse povo de dura cerviz. Até hoje
é visível substituírem nosso santo nome por deuses pagãos. Se não
soubéssemos com antecedência que seria assim, poderíamos sentir-nos
inúteis. Será que o filho unigênito do Criador continuará perdendo
para seres ou coisas que nada têm a ver com as funções Dele? Não, ele
não perde! Quem perde são os que O substituem.
Aqui de cima
observamos as atitudes dos povos que se dizem nossos. Vemos que não
valorizam o que fizemos por eles. A grande parcela não quer nada com a
vida eterna que somente nós podemos dar. Muito menos crer em nós. Uma
outra parte dispensa-nos e se apega aos elementos da natureza que tão
sabiamente colocamos no universo para servir aos humanos. Que dizer
daqueles que, por não terem fé, carecem de figuras materiais que nos
representem, ou que representem algumas falsas divindades? Somente
poucos têm-nos em conta, tal e qual somos e representamos para os
pecadores. Temos suficiência para tratar de assuntos relacionados a
eles e a nosso Pai. Somos o "Caminho, a Verdade e a Vida", o
único Mediador. Somos Jesus Cristo, o Salvador.
Fonte:Cilas
Emílio de Oliveira - Site Alfa e Omega
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